O treino de corrida vai além de uma boa planilha de treinamento e dos aspectos fisiológicos: envolve também o comportamento emocional do atleta, fundamental para o cumprimento das rotinas de treinamento e para uma boa participação em competições.
Como há anos trabalho com atletas amadores, vejo muitos erros de comportamento, não só durantes os treinos, mas, principalmente, nas provas. Entre os erros mais comuns estão: treinar mais do que a planilha pede; não descansar; e não obedecer o ritmo pré estabelecido. Por que isso acontece? O que percebo é que, na maioria das vezes, falta ao atleta humildade. Isso mesmo. O atleta acha que entende mais que o treinador; ou, quando está na prova, pelo simples fato de ser ultrapassado por um “gordinho”, por exemplo, ele esquece tudo o que treinou e coloca a estratégia de lado... Repito, falta humildade.
Para exemplificar quanto ela é importante, vou comentar as participações de brasileiros em maratona nas Olimpíadas. Antes do grande desempenho de Vanderlei Cordeiro em Atenas, os atletas brasileiros vinham de resultados inexpressivos nas maratonas dos Jogos Olímpicos, apesar de nossos esportistas sempre terem tido bons resultados em provas internacionais (já tivemos até um recordista mundial de maratona - Ronaldo da Costa, em Berlim, 1998, com 2h06min05s). Até Vanderlei, a melhor colocação de um brasileiro havia sido nos Jogos de Atlanta, em 1996, com Luís Antônio dos Santos em 10ª lugar.
Eu gostaria de colocar que o nosso herói Vanderlei Cordeiro de Lima, antes de sua maravilhosa participação em Atenas, já tinha amargado um 47º lugar em Atlanta e um 75º em Sidney. Já vi atletas brasileiros que simplesmente pararam nas provas por não achar honrosa uma colocação dessas. Eu insisto: é importante lembrar que Vanderlei, apesar do seu melhor resultado ser na casa de 2h08’, correu provas para mais de 2h30’... E ele vai até o fim. Afinal, está representando o nosso País, as pessoas acreditaram nele, ele próprio treinou e pensa: “tenho de terminar”.
Na minha avaliação, esse é o comportamento de um verdadeiro campeão. Quantas vezes o seu treinador não falou para você participar de uma prova e você pensou: “não quero ir porque não estou 100%...” É justamente nessa hora que é importante o atleta ter consciência de que ele pode não estar 100%, mas deve participar, aprender, treinar e competir, como qualquer atleta de elite faz. Ou deveria fazer!
Lembro-me de quando era nadador: nós comparávamos os tempos das provas de acordo com a época do ano. Assim, quando participávamos de uma competição durante a época de base, sabíamos que provavelmente não teríamos nosso melhor resultado. Mas tínhamos um tempo para essa fase e procurávamos melhorá-lo temporada após temporada.
Acho que todos nós, no esporte e na vida, devemos ter humildade e nos inspirar no exemplo do Vanderlei. Só assim seremos seres melhores e conseguiremos chegar bem ao final da maratona da vida.
Abraços e bons treinos!

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